Opinião: 'Desventuras em série: no Santos, Jair viveu crise de identidade'

MatériaMais Notícias

da dobrowin: Quando a escalação do Santos para o clássico da última quinta contra o Palmeiras foi divulgada, tomei um susto: Quatro atacantes? O pensamento que sobreveio, instantâneo, foi de que Jair Ventura havia enlouquecido. Após mais de um mês sem jogos oficiais devido à disputa da Copa do Mundo, o treinador respondia à pressão inclemente que sofria no cargo subvertendo por completo os valores fundamentais de sua filosofia de jogo. Não só por escalar uma equipe pretensamente ofensiva, mas por fazê-lo esvaziando o meio de campo, deixando o setor “abandonado”, com apenas dois jogadores: Alison e Jean Mota. E fazendo a opção por essa estratégia (???) em um clássico, jogo normalmente mais renhido. Não fazia sentido. Era como se o treinador, angustiado em provar não ser um teimoso cultor da postura defensiva, conforme o rótulo prevalente em crítica e público, tivesse optado por praticar um “haraquiri”. Sem conseguir fazer do Santos um time capaz de “jogar com a bola”, desprendendo-se da fórmula única do contra-ataque, parecia largar mão do meio e esperar que talentos individuais na frente lhe dessem sobrevida. Soou mais como crença que como ideologia.

Naquela noite, no Pacaembu, o trabalho de Jair no Santos desnudaria sua crise de identidade. Foi uma experiência psicanalítica de futebol. O jovem técnico chegou ao clube credenciado pela boa trajetória no Botafogo. Com um time basicamente operário, classificou-se à Libertadores, passou por fases preliminares contra clubes tradicionais, repetiu a dose na etapa de grupos, superou as oitavas e vendeu caro a eliminação para o Grêmio nas quartas. Na Copa do Brasil, foi até as semifinais. Todas essas caminhadas bem sucedidas aconteceram com um rígido sistema de jogo, pautado em esperar o adversário, marcando com compactação e contra-atacando com eficiência. Padrão de jogo e um time aguerrido colocaram o treinador em alta conta. Chegou ao Santos para repetir a dose. E a interrogação foi imediata, natural: repetiria a fórmula mais conservadora em um clube habituado à cultura ofensiva? Tornava o cenário ainda mais crítico o fato de o antecessor, Levir Culpi, ter se tornado impopular por feito uma equipe justamente forte na defesa e de pouca inspiração ofensiva – fato agravado pela desmotivação de Lucas Lima, já pré-acertado com o Palmeiras, e Ricardo Oliveira em um ano com seguidos problemas de saúde que afetaram seu ritmo e desempenho.

Desde as primeiras entrevistas, Jair teve que responder sobre o tal DNA ofensivo do Santos e jamais deu a entender que pretendia repetir a fórmula do Botafogo. Pelo contrário, dizia buscar uma equipe de construção de jogo. A sensação era de que queria provar-se camaleônico, capaz de ter saídas diversas para as mais diferentes ocasiões. No Campeonato Paulista, porém, o que se viu foi uma espécie de pastiche do trabalho anterior. Uma equipe encolhida farejando as possibilidades de contra-ataque. Um dos jogos emblemáticos foi o clássico contra o São Paulo, quando venceu por 1 a 0, com gol de Gabriel em lance esporádico. Vanderlei foi o melhor santista em campo no Morumbi naquele dia.

Os resultados abaixo do esperado, os queixumes da torcida e as críticas nos programas esportivos levaram Jair a oscilar estratégias, dando sinais de que sua convicção não verbalizada, mas praticada, se perdia diante da necessidade de sobreviver no cargo. Alterações na formação do meio de campo foram constantes, tentando encontrar uma que sustentasse um estilo de jogar com a bola, abolindo a tática única da espera para contra-atacar. Foi nesse processo que surgiu o discurso do ‘falta um meia, falta um camisa 10’. A retórica do “pensamento único” foi abraçada pelo presidente José Carlos Peres, ofuscando o fato de equipes que buscam o ataque por meio da posse de bola podem existir sem essa figura. E, assim, o time viveu uma montanha-russa de posturas. E quando se propôs a defender, muitas vezes fez pessimamente, como contra o Grêmio, na goleada por 5 a 1.

A escalação contra o Palmeiras foi o clímax da falta de identidade e do desespero de causa. Com o quarteto ofensivo, o Santos esperou que os dribles de Bruno Henrique e Rodrygo ou as bolas aéreas de um lado a outro pudessem resolver. O empate, encontrado pelo segundo caminho, deu-se em larga medida pela inépcia do Palmeiras em aproveitar os fartos contra-ataques que o Santos ofereceu naquela noite.

RelacionadasSantosSantos muda de planos e demite o técnico Jair VenturaSantos23/07/2018SantosSerginho Chulapa comanda o Santos na quarta-feira, contra o FlamengoSantos23/07/2018SantosPeres descarta estrangeiro no Santos; gerente tem dois nomes para técnicoSantos23/07/2018

da cassino: Jair Ventura mostrou competência no Botafogo. No Santos, a ânsia de corresponder às expectativas talvez tenha levado a essa crise de identidade de jogo, não assumida, obviamente. Não à toa, perdeu mais de 50 dos jogos que fez: 15 de 39. Provavelmente possa resolver essa questão, com a experiência adquirida, no divã seguinte.

You may also like...